11 de abr. de 2012

Felicidades explícitas.

Precisamos mostrar ao mundo que estamos felizes... Noto isso quando vou a shows, quando estou dançando no meio da plateia ou quando fico na arquibancada só ouvindo a música. Precisamos mostrar que estamos nos divertindo, precisamos provar  que estamos bem, que não estamos na sala de casa vendo TV,  sozinhos num sábado a noite.
Podemos estar longe do palco, no meio da multidão,  mas ensaiamos um sorriso e o fixamos no flash da máquina digital ou do celular. Alongamos os braços para mostrar que “o mundo é nosso” naquele pedaço de diversão.  E, não fotografar, não registrar, deixar que o momento fique guardado somente na memória é como não estar lá, é como não ter como provar que se esteve lá e que se foi feliz.
Dos shows de uma noite às viagens de vários dias: as lembranças não são mais pessoais, não são mais somente nossas. O estar lá, em algum lugar, significa dizer que não estivemos somente aqui, no mundo que não dividimos com ninguém, no mundo das nossas quatro paredes.
Gostei de ver, num blog que não sei mais onde achar –eis o labirinto fornecido pelos links, a foto de uma louça suja na pia esperando pela água e pelo detergente, com a legenda dizendo mais ou menos assim: “restos de uma noite de amor”. Ah, que forma poética de descrever uma noite de amor, que forma poética de mostrar algo tão íntimo como uma louça suja, algo do seu espaço particular.
Eu, que sempre lavo minhas louças antes de receber minhas visitas – pois nossa sujeira é algo muito íntimo de ser mostrado – achei a ousadia algo cheio de idiossincrasia.
Também publico fotos de onde estive, do que vi por aí. Estou em falta com os shows, tenho que combinar com os amigos para tirarmos fotos retroativas, só sorrindo com os braços abertos, pois o cantor ou a banda não precisam aparecer, basta colocarmos a legenda com o texto implícito de nossa felicidade.
Mas, confesso que perdi algumas fotos num  computador bixado. Não tenho mais como partilhar alguns momentos de diversão, vulgo felicidade contemporânea.  Talvez, isso sirva como um bom exercício de solidão: esses momentos retornam só a mim.  Eu sei onde estive, e pior, eu sei se fui ou não feliz. (APSR)

6 de abr. de 2012

"...Ser João e Filomena..."
assim terminei o poema
que fiz em dupla com uma colega
que usava muletas,
e, que se destacava,
por não parecer se apoiar nelas...
Quantas vezes servi de muletas
para ouvir segredos alheios,
alheios a minha vontade de ouvi-los,
alheios a minha vontade de sabê-los,
interessada numa reciprocidade
que se esvaiu no tempo.
Rememoro todas as muletas que usei....
Pessoas cujos rastros não não vejo mais
Posturas que se perderam tempos atrás
Até livros marcados e riscados que já dei
Muletas e bengalas
Lentes e perucas
Bolsas grandes e sacolas de compras
Tantos artifícios para esconder
o que mais nem sei...
Ser João ou Filomena
ou ser um pouco parecida com essa colega
que tem muletas verdadeiras
para apoiar seus passos
mas não suas caminhadas.